O artigo anterior, intitulado “O futuro do sindicalismo no Serviço Público diante do teletrabalho”, tratou do sindicalismo no serviço público em geral e dos desafios colocados pelo teletrabalho à representação coletiva. Mas há uma especificidade que merece atenção própria: o sindicalismo na Administração Tributária opera em um campo em que os riscos da fragmentação e do enfraquecimento institucional não dizem respeito apenas à carreira — dizem respeito à própria capacidade do Estado de funcionar. Entender isso é o ponto de partida para pensar o futuro das entidades que representam os auditores e as auditoras fiscais tributários.
Uma carreira no centro do Estado
A autoridade fiscal não é um atributo funcional qualquer. Ela é o instrumento pelo qual o Estado assegura a arrecadação que financia suas políticas, combate a sonegação e a evasão fiscal, garante isonomia tributária entre contribuintes e dá sustentação jurídica e operacional à ordem econômica. Sem uma Administração Tributária forte, independente e tecnicamente qualificada, o Estado perde a capacidade de cumprir suas funções constitucionais mais básicas.
É por isso que a defesa da carreira de auditor fiscal tributário nunca foi — e não pode ser tratada como — uma pauta estritamente corporativa. Quando as entidades representativas dos fiscos estaduais lutam pela aprovação da Lei Orgânica da Administração Tributária (LOAT), pela valorização dos aposentados e pensionistas via PEC 6 ou pelo reconhecimento do papel fiscal na regulamentação do IBS no contexto da Reforma Tributária, estão defendendo um modelo de Estado comprometido com a legalidade, a justiça fiscal e a eficiência da gestão pública.
O teletrabalho não muda esse mandato institucional. Mas altera profundamente as condições em que o sindicalismo do Fisco pode exercê-lo.
O que muda com a dispersão territorial
O Fisco já é, por natureza, uma estrutura geograficamente dispersa. Auditores fiscais tributários atuam em postos fiscais, regionais, delegacias e unidades espalhadas por todo o território de cada Estado — e a FENAT articula essa realidade em escala nacional, representando sindicatos de diferentes fiscos com culturas institucionais, históricos de negociação e agendas políticas distintas.
O teletrabalho aprofundou essa dispersão. Se antes a sede do órgão funcionava como ponto de convergência física — onde se formavam lideranças, circulavam informações não oficiais e se construíam alianças —, hoje essa função foi fragmentada. O servidor que trabalha remotamente não participa dos corredores, não está presente nas reuniões informais, não vê o colega no intervalo do almoço. A identidade com a carreira e com a entidade representativa precisa ser construída por outros meios.
Para o sindicalismo do Fisco, isso exige uma resposta que vai além da migração para plataformas digitais. Exige a construção deliberada de espaços de pertencimento — encontros híbridos que combinem a eficiência do ambiente virtual com a densidade política do contato presencial, congressos nacionais e regionais que reforcem os vínculos entre as categorias dos diferentes estados, e uma comunicação institucional que não apenas informe, mas construa identidade coletiva e senso de missão compartilhada.
Mobilização digital como ferramenta de pressão política
A atuação política das entidades dos fiscos sempre dependeu de articulação qualificada — junto ao Congresso Nacional, aos poderes executivos, às secretarias de Fazenda e aos órgãos de controle. O teletrabalho não eliminou essa necessidade; ao contrário, ampliou o campo em que ela precisa ser exercida.
A mobilização digital tornou-se instrumento central de pressão institucional. Campanhas coordenadas de envio de mensagens a parlamentares, ações simultâneas nas redes sociais em momentos de votação estratégica, produção de conteúdo técnico que adentre o debate público antes que as decisões sejam tomadas — tudo isso passou a integrar o repertório permanente das entidades que querem ter efetividade política, e não apenas presença simbólica.
A FENAT tem avançado nessa direção, e os resultados são visíveis. Pautas como a LOAT, a PEC 6, a PEC 10 e tantas outras, exigem não apenas conhecimento técnico — exigem capacidade de colocar esse conhecimento em circulação, de construir aliados fora da categoria e de sustentar pressão ao longo de processos legislativos que se estendem por meses ou anos. Nesse ambiente, a entidade que comunica bem tem mais poder do que a que apenas negocia nos bastidores.
Novas pautas, nova agenda
O teletrabalho também criou demandas específicas que as entidades dos fiscos precisam incorporar com rigor. A avaliação de desempenho no trabalho remoto é um desses temas: diferentemente de funções com entregáveis tangíveis e frequentes, a atividade fiscal envolve processos longos, multidisciplinares e nem sempre mensuráveis por indicadores simples. Critérios de avaliação inadequados podem tanto prejudicar o servidor quanto comprometer a qualidade do trabalho fiscal.
A mesma atenção se aplica ao controle de jornada, ao direito à desconexão, à infraestrutura tecnológica necessária ao exercício remoto das atividades fiscais — acesso a sistemas internos, segurança da informação, equipamentos adequados — e à saúde mental de servidores que, em muitos casos, acumularam responsabilidades domésticas e profissionais sem a separação física que o ambiente de trabalho presencial proporciona.
Essas são pautas novas, mas não são pautas menores. Elas dizem respeito às condições concretas em que o auditor fiscal exerce sua função — e, portanto, à qualidade do próprio trabalho fiscal que o Estado e a sociedade demandam.
A missão que não muda
No meio de todas essas transformações, há algo que permanece constante: a necessidade de que a Administração Tributária tenha voz ativa no debate público sobre o papel do Estado, sobre a justiça fiscal e sobre o modelo de tributação que o país quer construir. A Reforma Tributária em curso — com a criação do IBS, a extinção progressiva do ICMS e a reconfiguração das competências tributárias entre União, estados e municípios — é o maior rearranjo do sistema tributário brasileiro em décadas. E o Fisco está no centro desse processo.
O sindicalismo do Fisco que souber se posicionar como ator técnico e político nesse debate — produzindo análises, ocupando espaços, formando aliados e sustentando a defesa da autoridade fiscal com consistência e legitimidade — estará cumprindo um papel que vai muito além da representação de uma categoria. Estará contribuindo para que o Estado brasileiro tenha, ao fim desse processo, uma Administração Tributária à altura dos desafios que o país enfrenta.
Esse é o horizonte que orienta a atuação da FENAT: moderno nos instrumentos, firme nos princípios, permanentemente mobilizado em defesa dos fiscos estaduais e da justiça fiscal como fundamento de uma sociedade mais igualitária.
Glauco Honório é presidente da Federação Nacional dos Auditores Fiscais Tributários. Graduado em Economia, com pós-graduação em Administração Financeira e Gestão Tributária e MBA em Economia do Setor Público. Auditor Fiscal da Receita Estadual desde 1990, construiu sólida trajetória na Administração Tributária paulista até aposentar-se em 2023. Exerceu a vice-presidência do Sinafresp nas gestões 2016–2018 e 2019–2021, e foi representante sindical por Campinas na gestão 2022–2024. Atualmente, ocupa o cargo de Diretor Suplente da entidade, mantendo atuação ativa nas pautas institucionais da categoria. Foi também diretor da Fenafisco de 2019 a 2025.

